
1. Introdução
Atenção: como será visto adiante, o Transtorno Bipolar (TB) é caracterizado por episódios maníacos (EMs), hipomaníacos (EHs) e depressivos maiores (EDMs). Neste artigo não serão abordados os últimos, uma vez que já estão apresentados no artigo sobre Transtornos Depressivos (TDs). Por este motivo, sugere-se que seja lido o artigo sobre TDs antes desse.
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1.1. Distribuição na população:
Em relação à prevalência, estima-se que aproximadamente 3 a 5% da população seja portadora de alguma forma de TB. Um grande estudo com 61.392 pessoas de onze países de todos os continentes demonstrou que o TB atinge em média 2,4% da população, sendo 0,6% para TB I, 0,4% para TB II e 1,4% para outros tipos de TB.
O transtorno surge com mais frequência na adolescência e início da idade adulta. Entretanto, não é incomum iniciar na infância ou terceira idade. A distribuição entre os sexos é semelhante, sendo que afeta um homem para cada mulher.
1.2. Prejuízos decorrentes do TB:
O TB deve ser encarado com muita seriedade e bom senso, pois é um transtorno que pode causar inúmeros prejuízos na vida dos seus portadores, quando não adequadamente tratado. Atualmente é considerada a sexta patologia que mais causa incapacidade no mundo. Atenção para esta informação: entre centenas de doenças pesquisadas, é a sexta que mais causa incapacidade! Em relação ao trabalho, por exemplo, estudo conduzido nos Estados Unidos demonstrou que ocorrem em média 65 dias faltas ao trabalho por ano entre portadores de TB, número bastante elevado quando comparado com pessoas sem o transtorno.
Por que isso ocorre? Trata-se de uma doença gravíssima? A resposta é não. O transtorno necessita de todos os cuidados terapêuticos preconizados pela boa literatura médica, pois pode vir a se tornar grave, sim, isso é uma realidade. Mas o fato de existirem muitos portadores da condição sem o tratamento adequado é o que acaba por contribuir para as altas taxas de incapacidade. Ou seja, grande parte das pessoas incapacitadas estão nesta condição devido à falta de tratamento correto.
É muito comum portadores de TB relutarem em assumirem ter problemas que necessitam de ajuda médica. Estima-se que os portadores de TB I demorem em média cinco anos até chegarem ao tratamento, sendo o dobro do tempo (10 anos) para TB II. Quando procuram auxílio, é relativamente comum uma resistência em aceitarem a necessidade de tratamento.
Infelizmente apenas 50% dos portadores de TB com diagnóstico estabelecido e prescrição feita aderem ao tratamento. Ou seja, metade dos portadores desta condição que saem dos consultórios com seu tratamento prescrito simplesmente deixam de fazê-lo. Isto significa que estarão apresentando sintomas, às vezes graves, com a consequente incapacidade que causam, contribuindo para ser a sexta doença mais incapacitante no mundo.
2. Como é feito o diagnóstico:
O diagnóstico de TB e de episódios agudos de humor serão apresentados conforme o DSM 5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders; no português, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), referência para diagnóstico em psiquiatria mais utilizada no mundo.
2.1. Como é feito o diagnóstico de TB tipo I:
Para o diagnóstico, devem ser atendidos os seguintes critérios:
A. Foram atendidos os critérios para pelo menos um episódio maníaco.
B. A ocorrência do(s) episódio(s) maníaco(s) e depressivo(s) maior(es) não é mais bem explicada por transtorno esquizoafetivo, esquizofrenia, transtorno esquizofreniforme, transtorno delirante, transtorno do espectro da esquizofrenia ou outro transtorno psicótico com outras especificações ou não especificado.
Atenção: A ocorrência de episódio depressivo, embora muito comum no TB tipo I, não é necessário para o diagnóstico. Apenas o episódio maníaco já é suficiente.
2.1.1. Critérios para o diagnóstico de Episódio Maníaco (EM):
A. Um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável e aumento anormal e persistente da atividade dirigida a objetivos ou da energia, com duração mínima de uma semana e presente na maior parte do dia, quase todos os dias (ou qualquer duração, se a hospitalização se fizer necessária).
B. Durante o período de perturbação do humor e aumento da energia ou atividade, três (ou mais) dos seguintes sintomas (quatro se o humor é apenas irritável) estão presentes em grau significativo e representam uma mudança notável do comportamento habitual:
1. Autoestima inflada ou grandiosidade.
2. Redução da necessidade de sono (p. ex., sente-se descansado com apenas três horas de sono).
3. Mais loquaz que o habitual ou pressão para continuar falando.
4. Fuga de ideias ou experiência subjetiva de que os pensamentos estão acelerados.
5. Distratibilidade (i.e., a atenção é desviada muito facilmente por estímulos externos insignificantes ou irrelevantes), conforme relatado ou observado.
6. Aumento da atividade dirigida a objetivos (seja socialmente, no trabalho ou escola, seja sexualmente) ou agitação psicomotora (i.e., atividade sem propósito não dirigida a objetivos).
7. Envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para consequências dolorosas (p. ex., envolvimento em surtos desenfreados de compras, indiscrições sexuais ou investimentos financeiros insensatos).
C. A perturbação do humor é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou profissional, para necessitar de hospitalização a fim de prevenir dano a si mesmo ou a outras pessoas ou então coexistem características psicóticas.
D. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento, outro tratamento) ou a outra condição médica.
Importante destacar que episódios com sintomas maníacos surgindo concomitantemente ao uso de um tratamento para depressão são considerados EMs.
2.1.2. Descrição dos sintomas do EM:
a) Alterações do humor:
Dentre todos os sintomas maníacos o humor expansivo ou elevado e o humor irritável são os mais comuns. A seguir uma explicação sobre o que é humor. Se você leu o artigo sobre depressão, já leu a descrição dos quatro parágrafos a seguir.
Entende-se por humor o estado de ânimo ou “estado de espírito” de uma pessoa. O humor é o estado de disposição, motivação e bem-estar físico, psicológico e emocional que perpassa todas as experiências psíquicas. Funciona como uma lente através da qual vemos e nos relacionamos com o mundo, com as situações, com as pessoas e com nós mesmos. “Afeta” a totalidade psíquica e física do indivíduo, sendo por isso antigamente chamado de afeto. Essa “lente do humor” é o que dá cor às vivências do dia a dia.
De forma simplista, a fim de se entender melhor, nossa lente de humor pode ser positiva ou negativa. Quando o humor estiver rebaixado e deprimido, tudo é negativo. Todos nós já passamos por algum período de tristeza, quando tudo fica “preto e branco”, “sem cor”, “sem vida”. Quando o humor está mais exaltado, tudo “ganha cor”, “a vida fica colorida”.
Chama-se de catatimia à influência que o humor tem sobre uma pessoa, sendo usado o termo eutimia para designar um humor dito normal, hipotimia para humor deprimido e hipertimia para humor exaltado. Não se trata de uma influência apenas psíquica, mas também somática, corporal. Como exemplo dessa repercussão física, quando uma pessoa está de “bom humor”, seus movimentos, postura e fala estão mais expansivos e dinâmicos. Ao contrário, alguém que está deprimido apresentará movimentos lentos, curtos e contidos, com fala lenta e muito pausada. Como já mencionado, no EM o humor pode ser exaltado ou irritável. O humor exaltado é descrito como eufórico, elevado e exageradamente alegre. É como se o indivíduo sentisse uma alegria sem fim. “Me sinto feliz como nunca”, “Sinto que posso tudo”, “Nada me segura” são expressões comuns. Existe um excessivo entusiasmo para relações interpessoais, sexuais ou profissionais. Tudo está muito, muito bem e nada é um obstáculo ou um problema. Existe muita autoconfiança.
O humor também pode ser irritável (ou disfórico). Neste estado as pessoas estão hiper-reativas e hiper-sensíveis. Qualquer contrariedade pode desencadear surtos de grande irritação ou até mesmo de agressividade. Existe um intenso mal estar, raiva e agitação. “Sinto que a qualquer minuto vou explodir”, “Estou por um fio”, “Cheguei ao meu limite”. Em crianças com TB, a presença de humor irritável é muito mais frequente que em adultos.
Importante notar que mudanças bruscas no humor são comuns, podendo ocorrer no mesmo dia. Por exemplo, de um estado de euforia e alegria intensas o indivíduo pode tornar-se muito irritado e agressivo. De um estado irritável e confrontativo, pode alternar para sintomas depressivos, com crises de choro e vontade de morrer.
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